A questão realmente é como os advogados devem abordar seus clientes quando sentem que os clientes estão sendo tomados por emoções e não estão sendo realistas em relação aos casos sendo tratados por ele.
Até mesmo o melhor advogado somente pode apresentar o que ele acredita é a melhor solução para seu cliente. Infelizmente, muitos dentre nós não são “representativos”, ao invés nos tornamos uma espécia de “vendedor” com uma atitude forçada em relação aos nossos clientes, tentando convencer eles a aceitar nossa abordagem. Isto não quer dizer que somos controladores, mas sim porque temos o conhecimento legal e a experiência que nossos clientes não possuem. Inclusive essa é a razão pela qual o cliente busca advogados para representa-los, não é?
Mesmo que com nossa boa vontade em ajudar e guiar nossos clientes, nós não podemos forçar nossa opinião a eles. É sempre uma decisão do cliente no final das contas.
Mas e se um cliente esta cometendo um erro crucial e pede que nós abracemos a decisão errada dele? Alguns de nós, e eu admito que sou um deles, não conseguimos aceitar quando um cliente entra no que gosto de chamar de “Abordagem Kamikaze”. Nesse caso, se nos realmente acreditamos, por um ponto de vista profissional, que estaríamos causando alguma perda ou prejuízo aos nossos clientes, devemos usar nosso privilégio para abandonar (quanto mais cedo melhor) ou nem tomar o caso no primeiro momento!
Hoje gostaria de trazer apenas 1 exemplo (de dezenas) de os mesmos erros frequentemente cometidos por diferentes clientes:
Harry e Sally:
Harry e Sally já haviam entrado em um processo de divórcio. Eu estava representando o Harry, que estava pedindo metade da propriedade que dividiam. Sally alegava que ela pagou pela maioria da propriedade, portanto deveria ter um pedaço maior dessa propriedade.
Harry me disse que quando eles casaram, a mãe de Sally tinha emprestado a eles uma quantidade de dinheiro para que usassem como 20% de entrada para a compra da nova casa deles.
Ela deu o dinheiro em espécie, mas fez com que assinassem um acordo de empréstimo. A razão para esse acordo, como ela alegou, foi para razões de impostos no exterior onde pagavam impostos. Durante os últimos 15 anos, o casal (Harry era trabalhador autônomo) pagou totalmente o dinheiro do empréstimo de volta à mãe de Sally. O dinheiro usado para o pagamento de volta era de renda não declarada, ou o que Israel chama de ”dinheiro negro ou caixa dois” – renda não declarada ao governo de Israel.
Harry me contou que ele ainda tinha o documento original do empréstimo. Eu pedi a ele diversas vezes para que trouxesse a mim, ou que queimasse! Eu ainda pedi que ele não comentasse do assunto com a Sally, de nenhuma forma. É claro que Harry acreditava saber mais do que o seu próprio advogado – Ele me disse ”Estamos casados há 15 anos. Eu ajudei a mãe dela com diversas coisas, e eu quero terminar o casamento em bons termos com a Sally – não há nada a esconder. Ela nunca usaria isso contra mim.”
Tudo que eu dizia ao Harry, não fazia sentido para ele, que não seguia meus conselhos legais. Não havia nada que eu pudesse dizer para convence-lo do contrário.
Na nossa seguinte audição na vara de família, o advogado da Sally surpreende a nós todos, incluindo o juiz! Ele disse que sua cliente havia mudado de ideia e que agora acordava com o acordo inicial de Harry de dividir a propriedade igualmente para os 2, mas que haviam que pagar o empréstimo da mãe de Sally!
É claro que o advogado apresentou ao Juiz o documento original do empréstimo assinado por eles, o qual Sally só soube deste após uma conversa que Harry descreveu como ”uma pequena amável conversa com Sally, a noite”. Eu chamaria de ”Uma pequena e bem cara conversa”.
Como Harry não tinha comprovantes do pagamento, ele não tinha como lutar pelo seu direito, apesar de o empréstimo ter sido pago sim de volta. Ele havia muito mais a perder e nem tinha como trazer qualquer evidência de que havia de fato pago já a totalidade do empréstimo.
Eles fecharam um acordo e a ”pequena conversa” custou a Harry $50,000 dólares.
A moral:
Neutralizar as emoções e focar na realidade é um dos principais objetivos na relação do advogado com seu cliente. Ao mesmo tempo, o cliente deve lembrar a principal razão pela qual buscou um advogado – para ter alguém experiente e habilidoso ao seu lado, que consiga manobrar pelo sistema legal para ganhar o caso.
Confie em seu Advogado – não lute contra ele:
”O problema com o pensamento legal não são as inadequações dos advogados. É a própria natureza da lei, seu papel de pai-substituto, que desencadeia atitudes inconscientes, desejos ocultos, ideais ilusórios, que ficam no caminho da observação objetiva real do trabalho e da significância da lei; pois a lei parece provocar essas emoções limitadoras a limpar o pensar em quase todos os homens em qualquer momento que direcionam seu pensamento à problemas jurídicos. Os advogados, em geral, são melhores preparados para lutar contra essas limitações que qualquer homem comum. Pois, apesar das ilusões limitadoras, o advogado deve todo dia praticar aquela prática tarefa de ajustar interesses conflitantes que é a função do profissional legal. A desempenho dessa tarefa compele eles a vencer ponderáveis vitórias sobre aquelas ilusões as quais o homem comum é mais vitimado. Mas se os advogados são menos iludidos que os homens comuns sobre as características da lei, o realismo deles não é vigoroso como poderia ser, ou o Bealismo seria fora de moda entre os advogados assim como Platonismo é entre cientistas de primeira linha.”
Law and the Modern Mind de Jerome Frank


