A questão

Eu não sei quem você pode ser, eu não sei o que você almeja ser.

Eu ainda estou tentando conhecer você e o seu silêncio me incomoda.

Eu não sei de onde vêm as mentiras, é da sua voz que se cala?

O mundo no qual eu mergulho contra a minha vontade é como um túnel aterrorizador.

Da sua distância para a minha, nós nos perdemos com muita frequência.

E tentar compreender você é como seguir o vento.

Eu não sei por que permaneço em um mar que faz com que me afogue.

Eu não sei por que permaneço em um ar que me paralisa.

Você é o sangue da minha ferida, o fogo das minhas queimaduras,

Você é a minha questão sem resposta, meu choro mudo e meu silêncio.

Tradução da música “La question” de Françoise Hardy (1971, em colaboração com Tuca)

 Ninguém se casa pensando que, em algum ponto depois de anos de casamento, se sentirá tão frustrado que acabará considerando seriamente a possibilidade do divórcio.

Não há guias nem nada que nos facilite

O casamento é um tipo de relacionamento extremamente complicado para o qual ninguém está previamente preparado. Ninguém faz um curso preparatório antes de tomar a decisão do matrimônio com a pessoa que escolher viver o resto da vida.

Alguns casais vivem na gangorra à beira do divórcio, sem se decidirem; outros se divorciam. E existem aqueles casais felizes e sortudos que são felizes casados – mas é preciso levar em conta que é necessário trabalhar duro para que a união do casamento feliz permaneça.

Se um dos cônjuges se encontra em um perigo real e tangível – em outras palavras, quando ele/ela precisa sair do relacionamento para manter a sua integridade física e emocional – é preciso procurar a saída e não um outro meio de salvar o casamento.

Geralmente essa não é a realidade e a maioria dos divórcios pode ser evitada se o casal estiver disposto a uma jornada de trabalho árduo para salvar o casamento. Essa jornada não poderá ser feita sem a ajuda profissional como uma terapeuta, psicólogo ou algum tipo de líder religioso que seja aceito pelo casal.

Por que permanecemos casados?

Às vezes a questão principal já não é a causa do divórcio, mas sim por que permanecemos em um relacionamento por tanto tempo, quando ambos os cônjuges não têm meios ou ferramentas para continuar no relacionamento e pior ainda, quando não há como criar as ferramentas necessários para trabalhar em um relacionamento melhor.

Algumas vezes é muito difícil decidir se vale a pena permanecer no casamento, ou finalmente sair dele. Alguns casos são mais claros do que os outros – como aqueles que envolvem abuso físico ou abuso emocional sério; vícios ou mudanças no comportamento sexual e de preferência de gênero.

É difícil decidir, mas não impossível. É preciso lembrar que um certo comportamento pode ser intolerável para algumas pessoas, ao mesmo tempo que para outras pode não passar de uma pequena inconveniência e cabe a um dos cônjuges decidir este limite.

Ainda que saibamos que precisamos aprender a aceitar as limitações alheias, sempre há uma linha que devemos traçar para a nossa própria segurança – física ou emocional.

Eu não estou dizendo que devemos gostar ou aceitar todo o deslize de nosso parceiro, mas certamente devemos nos focar em melhorar a nós mesmos, e não aos demais.

Sejamos corajosos

Entre em um túnel aterrorizador se for preciso e lute pelo seu casamento. Mas se sentir que existe um perigo real, saia o mais breve possível, pelo bem de ambos os cônjuges – e pelos filhos, se houver.

Não permaneça em um mar que faz com você se afogue; não fique perseguindo o vento que você não pode pegar, nem deixe que seu parceiro se torne o ar que o paralisa.

A resposta não é ficar mudo, mas sim quebrar o silêncio e construir uma vida melhor.