Não é justo!
Quantas vezes você já ouviu esta frase? Quantas vezes já repetimos isto para nós mesmos? Sem dúvida, todos já vivenciamos uma experiência com algum evento ou consequência injustificável.

A vida não é razoável. A vida não é justa. No máximo se pode esperar que a lei seja cumprida, mas não que justiça seja feita. Por exemplo: João tem dois olhos com os quais pode enxergar e José tem apenas um olho bom. Se José vier a ocasionar a perda da visão de um dos olhos de João, seria razoável seguir o decreto “olho por olho”? Neste caso João ainda poderia fazer uso de um dos olhos, mas José estaria completamente cego!

Quando uma pessoa sofre danos financeiros (causados por terceiros), provavelmente tentará receber uma compensação. Mas o que acontece se todo o sistema não puder ajudá-lo como aconteceu no caso de David, a seguir narrado?

David encontra um “amigo”
David fez aliá há alguns meses atrás e decidiu ir morar em Telaviv, após um breve período de estadia com parentes e amigos. Ele estava procurando um imóvel para dividir com um companheiro de apartamento quando conheceu Arthur, um novo imigrante que vivia em Israel nos últimos anos.

Após uma breve conversa tomando uma cerveja, David e Arthur chegaram a um acordo segundo o qual David se mudaria para o apartamento de Arthur (que estava sendo alugado por ele). Cada um dos dois teria o seu próprio quarto, mas eles teriam que dividir o restante do imóvel. Ressalte-se que não se assinou um pacto por escrito.

Apenas depois de David ter se mudado Arthur mencionou a necessidade de um depósito, dizendo que este era parte do acordo. O depósito no valor de um mês de locação deveria ser pago a Arthur, acrescido da remuneração mensal regular. Saibam que isto não é absurdo, e faz parte de muitos pactos de locação.

Arthur tinha um contrato por escrito com o seu locador (com a duração de um ano). O depósito em questão seria uma garantia para Arthur. Se David por algum motivo rompesse o (inexistente) contrato entre eles, em se mudando antes do prazo inicial (constante no contrato entre Arthur e o locador), David perderia o valor do depósito.

Duas semanas se passaram e David ainda não havia concordado em pagar a Arthur o depósito já que ele achava que, se soubesse desta condição e dos demais têrmos de antemão, não teria se mudado.

Mais alguns dias se passaram e agora Arthur passou a ameaçar David: ele jogaria todos os pertences de David na rua caso o depósito não fosse pago, mas David permaneceu convicto na sua decisão.

Após mais alguns dias David foi surpreendido com a porta principal trancada e a fechadura trocada. Ele foi à delegacia de polícia e tentou registrar a ocorrência, mas a polícia se recusou a atendê-lo alegando que se tratava de um caso civil e não de um ato criminal. David se dirigiu então ao tribunal, mas devido ao recesso de Pessach pôde apenas falar com uma secretária que informou (corretamente) que se tratava de um caso civil que demandaria algum tempo para que fosse solucionado, se é que a solução poderia de fato ser encontrada e que poderia se dar de forma favorável a David.

Não houve uma solução instantânea!

Na verdade David também estava errado:
David sabia que Arthur estava falando sério, mas fez muito pouco para minimizar o potencial dos prejuízos. David queria estar certo e procurar por justiça (como me contou depois) mas e quanto ao “outro lado da história”?

Arthur (que obviamente também estava errado) deveria ter esclarecido a questão do depósito na conversa que antecedeu a mudança. Ele não deveria ter permitido a mudança sem a efetivação do depósito, mas como se vê, não foi isto que aconteceu.

Arthur, na qualidade de locatário do seu locador, e como uma espécie de “locador” para David, tinha o direito de formular exigências, incluído o depósito. Este seria um pedido perfeitamente razoável, e obviamente de conformidade com a legislação.

David deveria ter sido “esperto” ao invés de “ter razão”. Ele poderia ter pago o depósito, se mudado posteriormente caso a parceria não fosse do seu agrado, e processar Arthur. O que ele não poderia ter feito era ter esperado que Arthur nada fizesse ao não receber o depósito. Isto estava claro desde o início: Arthur não iria renunciar, ele queria o valor exigido.

Para um mal julgamento há sempre um preço a ser pago:
Para David esta foi uma lição, ser “esperto” ao invés de “ter razão”. Todos os seus pertences estavam trancados. Arthur poderia ter permitido que David pegasse as suas coisas e fosse embora, mas David não teve sequer a oportunidade de entrar no imóvel!

David estava agora desapontado com a polícia, o tribunal, os advogados e etc. Felizmente ele tinha amigos que o ajudaram e ofereceram a ele um local para dormir até encontrar um outro cômodo para alugar.

Princípios baseados em emoções ou no desejo de se ter razão podem lhe custar muito caro!

Sejamos sensatos:
Caso tenha dificuldades em transigir, especialmente se estiver em “território estrangeiro”, como eu descrevo o primeiro ano de um novo imigrante em Israel, é melhor tentar ser mais flexível. Você deve admitir que conhece muito pouco ou nada sobre o sistema jurídico israelense, de modo que é preciso certificar-se de ter em mãos um “caso forte” em seu favor, para que possa agir de acordo com os seus princípios.

Você pode estar certo, a lei pode estar ao seu lado, mas a implementação dela pode ser um longo e muitas vezes complicado processo.

Escolha bem as suas prioridades.