Sem deixar de lado as críticas quanto à sociedade israelense, devemos lembrar que ela está repleta de aspectos positivos. Uma das características mais notáveis da sociedade israelense é a possibilidade de se estabelecer a espécie mais verdadeira e profunda de amizade, a qual dificilmente poderá ser encontrada em outros locais do mundo.
Como devem imaginar, eu já vi inúmeros casos envolvendo dificuldades que novos imigrantes encontraram em Israel. Alguns eu consegui solucionar; em outros eu realmente não pude ajudar; e quanto a alguns outros eu não precisei intervir porque boas pessoas, bons israelenses, o fizeram por mim, de forma melhor e mais rápida.
Para ilustrar esta última possibilidade, gostaria de narrar o caso de Hanna, uma nova imigrante de 25 anos que fez Aliá sozinha, deixando para trás os amigos e a família, para se tornar uma israelense.
Após um ano em um Ulpan e trabalhando temporariamente, Hanna foi contemplada com uma vaga na Faculdade de Enfermagem. Ela alugou então um apartamento para estar próxima à instituição que frequentaria durante os próximos anos, como estudante.
Ela encontrou um pequeno e acessível apartamento, de modo que pôde arcar com a despesa sem ter que partilhar com uma companheira. Ela estava feliz por morar em um apartamento no andar térreo, o qual havia sido recentemente remodelado e tinha todas as facilidades que ela precisava, apesar de não ter a mobília básica.
Os vizinhos eram gentis, sempre sorrindo para ela, mas de alguma forma “se mantinham reservados”. Hanna não compreendia bem este comportamento, mas optou por não dar muita atenção a isto, já que tudo estava correndo muito bem.
Já o proprietário era diferente; ele era reservado e muito restrito no que se referia ao contrato, principalmente quanto às datas de pagamento.
O último inverno em Israel teve muitas chuvas, e as tempestades de Tel Aviv causaram sérias inundações nos locais onde o esgoto não era suficientemente eficaz. Cabe ressaltar que, nesta cidade, o sistema de esgoto é sabidamente bem antigo, de modo que tende a ficar frequentemente obstruído.
Hanna estava preocupada com o mau cheiro emanado ao redor da casa após as primeiras chuvas. Consequentemente ela chamou o locador que a tranquilizou, alegando que o cheiro resultava do cano de esgoto próximo, mantido pela Prefeitura. Ele afirmou ainda que já havia contactado este órgão para que se solucionasse o problema.
Na mesma noite Hanna dormiu na casa de uma amiga, ouvindo a forte chuva que caía. Na manhã seguinte Hanna voltou para casa, e para seu desalento encontrou uma dúzia de pessoas ao redor do prédio, incluindo bombeiros, vizinhos e o locador do imóvel, bem como a equipe da Prefeitura trabalhando.
O que aconteceu foi que, durante a noite, a água do esgoto inundou toda a área, inclusive o apartamento de Hanna com cada um de seus pertences. Hanna ficou sem nada além de uma mobília quebrada e uma pequena montanha de roupa úmida e cheia de sujeiras.
Ela sabia que não tinha seguro, de modo que não poderia processar ninguém pelos danos. Estava sozinha em Israel e não tinha recursos financeiros para emergências como estas, e agora estava sem nada além das roupas do corpo e poucos outros pertences.
Ela não poderia sobreviver nem mais um dia. Em desespero tentou contactar a assistente social da Prefeitura mas a mulher estava muito ocupada tratando de outros casos emergenciais envolvendo necessidades urgentes de crianças por abrigos, roupas e comida, tudo o que fôra perdido durante a enchente.
Ela estava soluçando em uma esquina quando sentiu uma mão no seu ombro; ao erguer a cabeça encontrou o proprietário do apartamento. Ela conhecia a sua face, mas a expressão? Algo estava diferente. Como Hanna me contou depois, ele sorriu para ela e desculpou-se – o homem desapareceu por duas horas após garantir a ela que “tudo iria ficar bem”.
Israelenses, vocês sabem. Ele retornou com uma longa e detalhada lista em Hebraico, que deveria ser apresentada por Hanna a um dos vizinhos no andar de cima dentro de uma hora, quando ela seria orientada quanto à forma de proceder. A única frase que ela se recordou de dois minutos de conversa foi a famosa e ultrajante “confie em mim”, algo que ela fez simplesmente por não restar outra alternativa.
Hanna não podia acreditar nestas pessoas, e que fossem reais. Eles diziam a ela que não havia motivos para chorar e se sentir miserável, que ela deveria levar em conta que passou a ser uma israelense. Hanna não compreendia a sua mentalidade e por que falavam com ela como se todo o episódio já tivesse se encerrado, quando, na realidade, levando em conta a sua própria avaliação, ela se sentia diante do início de um pesadelo.
Hanna teve mais alguns momentos de chôro, não de tristeza mas sim de alegria e incredulidade. Ela se tornara um projeto da vizinhança desde o primeiro dia da inundação, até que pôde se virar sozinha. Ela teve a experiência mais gratificante que poderia imaginar, percebendo o quanto os israelenses levam a sério um projeto.
Menos de doze horas depois da inundação, Hanna encontrou um enorme pacote sobre a sua nova cama na casa dos vizinhos. Lá ela encontrou muitas das roupas perdidas, além de peças íntimas absolutamente novas, etc. Como ela veio a saber, voltaram para procurar suas roupas e outros bens; eles os encontraram e então lavaram, secaram e passaram.
Nas duas semanas seguintes Hanna passou cada quatro dias na casa de um dos vizinhos. Ela recebeu três refeições diárias (no mínimo), teve todas as roupas lavadas, recebeu um pequeno empréstimo, um passe livre para a condução (“Hofshi Hodshi”); foi conduzida por outra pessoa aos assistentes sociais, e ajudaram a preencher formulários que ela sequer sabia que existiam ou para que serviam. Ela recebeu ainda muitos outros embrulhos de pessoas que desconhecia completamente.
Após duas semanas seu apartamento foi completamente reformado e mobiliado, tendo sido utilizados móveis doados, incluindo cada peça que ela tinha e outras que ela precisava e não tinha antes da enchente. Ela foi isenta do pagamento do aluguel por um mês, e a primeira vez que teve que cozinhar para si foi depois de duas semanas. Sua geladeira estava tão cheia que ela teve que recusar o que as pessoas ainda lhe traziam.
Hanna foi bem sucedida na construção de sua vida em Israel. Ela atualmente é enfermeira e está saindo com o filho de um dos vizinhos. Ela aprendeu como um “sabra” verdadeiro é – cheio de espinhos por fora, mas doce e terno por dentro.

