Como já escrevi antes nós devemos levar em conta que, sem esquecer as críticas, a sociedade israelense também está repleta de aspectos positivos, sendo que uma das características mais impressionantes dela é a possibilidade de uma amizade verdadeira e profunda, do tipo que dificilmente se encontra em outros locais do mundo.
Este foi o caso da família Cohen (nome fictício). Era uma família de 6 pessoas que fez Aliá – deixando para trás os amigos e a família para se tornarem israelenses.
Após alguns anos em Israel o Sr. Cohen estava se dando bem como autônomo em uma empresa seguradora, com um bom rendimento, e devido à boa situação financeira a família decidiu construir uma casa no “Yishuv” em que viviam, na área de Binyamin. Eles haviam morado muito tempo em um “caravan” e acreditavam que havia chegado a hora de ter a sua casa própria em Israel.
Eles contrataram um arquiteto e planejaram uma casa relativamente pequena e barata que pensavam que podiam pagar. Para isto pegaram um grande empréstimo bancário para cobrir 70% do valor total, que eles pensavam que seria o valor final do imóvel.
Eles eram muito meticulosos e cautelosos para não exceder os objetivos planejados, mas como aprenderam depois, a distância entre um bom plano e a realidade pode ser muito grande.
Depois da última fase de construção, instalação de torneiras, sanitários, pias, etc, todo o dinheiro havia sido gasto. Eles não haviam compreendido bem o processo de construção da casa de modo que o plano financeiro deu errado. Por exemplo, eles foram surpreendidos com despesas como o pagamento de um especialista que analisou problemas de engenharia, e quando os preços do aço e cimento subiram 25% de modo inesperado durante a construção. Além do mais ninguém falou para eles que havia despesas para ligar a casa à estrutura da empresa de eletricidade (Tofes 4), gás, etc.
Eles completavam agora dois anos de processo de construção da casa e não podiam finalizá-la. Tinham dívidas com tudo e todos – inclusive com o arquiteto, fornecedores, bancos e a hipoteca da casa pelo banco. A família estava falida e não tinha uma casa, e depois de 6 meses sem pagamento o banco deu início a um processo legal para vender a casa.
O casal tinha quatro filhos que adoravam Israel, e juntos conseguiam um bom rendimento, mas agora parecia que tudo estava perdido. A pressão era intensa e havia inflação e juros, de modo que as dívidas apenas aumentavam.
Diante disto não restou outra opção a não ser pedir falência – o que foi feito. Os advogados custaram muito dinheiro, despesa paga por um Gemach. Durante as audiências chegou-se a um acordo com o banco da hipoteca, segundo o qual a casa seria vendida por 75% do seu valor, o que deixou os Cohen muito felizes.
Mas por que?
Toda a comunidade do Yishuv pegou a família Cohen como um “projeto pessoal”. Um dos vizinhos comprou a casa pagando toda a soma de dinheiro exigida – dividida igualmente entre todas as famílias do Yishuv. Como um grupo eles procuraram outro banco, pegando um empréstimo pelo valor total da casa. O grupo comprou a casa, a hipoteca foi quitada e o caso foi encerrado.
O empréstimo não teve o objetivo de quitar apenas a hipoteca, mas sim de finalizar a casa e tornar possível a moradia nela. Os pagamentos mensais eram razoáveis e depois de três anos os Cohens estavam isentos de todas as dívidas – como acontece em casos de falência.
Eles se mudaram para a casa, pagaram “aluguel” ao grupo, e dentro de 25 anos serão donos daquela propriedade.
Os detalhes de toda esta transação são difíceis de explicar, mas podemos resumir dizendo que se tratou de um processo beneficente. Obviamente foi difícil para a família perder cada centavo economizado durante 5 anos além de mais alguns anos de desconforto, mas no final das contas os resultados foram excelentes. Eles ganharam uma casa e uma comunidade, tiveram a chance de recomeçar a vida e as crianças não precisaram ser submetidas a um grande trauma.
Como podem ver, a família Cohen pôde sentir na pele o que um Sabra verdadeiro é – cheio de espinhos por fora, mas doce e terno por dentro.


