Na prática devemos aprender a escutar o que as pessoas têm a dizer. Procuramos ouvir até o fim ainda que algumas vezes possamos prever qual o fim da história, já que já ouvimos as mesmas coisas repetidas vezes de outros clientes.
Sally quer o Divórcio:
Sally estava muito chateada, e assim parecia já que estava com muita raiva quando nos afirmou que queria o Divórcio. Depois de contar a sua versão dos fatos ela afirmou categoricamente: “Eu nunca o perdoarei.”
Este foi um sinal de alerta para nós, que nos levou a pressupôr que as coisas não iam ser fáceis, já que sabíamos que um acordo teria que esperar até que ela aprendesse a perdoar o marido. Ela teria que perdoar Harry, mas isto não seria suficiente, ela teria também que perdoar a si mesma, ficar em paz consigo.
Para nós este parecia outro caso no qual boas pessoas se perdiam, boas pessoas faziam coisas erradas – nós pensamos que ela era um “caso perdido”, sabíamos de experiências passadas que ela não estava pronta para qualquer tipo de ajuste, mas ela provou que estávamos enganados.
Harry não era um bom marido ou bom pai. Ele vinha de uma família desestruturada, o qual de algum modo não apenas sobreviveu mas também conseguiu um bom título e um emprego bem remunerado como diretor de uma grande empresa. O que ele não sabia era o princípio básico de respeitar as mulheres, algo que depois soubemos que foi herdado de seu próprio pai. Nós achávamos que ele precisaria de alguns anos de terapia para corrigir o problema.
A mudança:
Harry começou um tratamento com um psicólogo alguns dias após a separação, logo depois de termos nos encontrado com Sally pela primeira vez. Neste interregno eles se separaram por meio de uma acordo pacífico oral, e Harry provou que também erramos quanto a ele.
Sally pediu que preparássemos a ação judicial e depois disto os termos do Divórcio. Alguns dias após a decisão do tribunal (separação ou “Peruk Shituf“), depois de dois anos de uma separação de fato, ela subitamente desapareceu, deixando Israel e seus dois filhos com sua irmã. Ela considerava seriamente voltar a morar em Londres.
A vida é cheia de surpresas
Sally voltou e a encontramos com Harry em nosso escritório, acreditando que finalmente seria assinado o acordo de Divórcio e o pedido do GET, mas para a nossa surpresa eles pediram que parássemos o caso por um tempo. No mesmo dia nós pedimos ao Juiz um novo adiamento, levando em conta que estes momentos de “tentar de novo” em geral não são bem sucedidos.
Mais oito meses se passaram e fomos novamente visitados pelo casal. Algo estava diferente agora, realmente estranho. Nós pensamos que eles estavam escondendo algo de nós, um “segredo” que não podíamos saber qual era.
O que havia de errado:
Como aprendemos, de fato havia algo de muito errado – conosco, os advogados. Nós perdemos a fé na bondade das pessoas, com seu poder, seus princípios e o amor que nutrem um pelo outro.
Harry estava em psicoterapia por mais de um ano, assim como Sally também vinha se submetendo a tratamento profissional, e ambos estavam sendo supervisionados por um rabino. Eles acreditavam ter mudado, acreditavam no perdão e consequentemente estavam se esforçando muito para perdoar um ao outro e a si mesmos.
Fácil de perdoar – difícil de esquecer
Ambos sentiam o mesmo: no início pensaram que não podiam perdoar um ao outro, mas na verdade não esqueciam um do outro. Eles se recusaram a esquecer os bons momentos, a boa química que tinham e tudo de bom que haviam passado junto aos filhos.
Estes momentos, eles disseram, foram a força por trás da decisão de fazer as coisas funcionarem. Eles afirmaram que era fácil perdoar, era uma questão de tempo, mas esquecer, apagar o passado ou reescrever os fatos, seria impossível.
Lembranças:
Todos temos lembranças boas e ruins. As ruins são difíceis de esquecer e de alguma forma elas voltam com frequência.
Eu pessoalmente senti a mesma coisa após o meu próprio Divórcio, portanto posso me relacionar com estas boas pessoas e entender o processo pelo qual passaram.
No entanto, infelizmente a maioria das pessoas não consegue deixar para trás as memórias ruins, se agarram a elas, como se precisassem delas para sobreviver pelo simples fato de não conseguirem perdoar a si mesmas.
Sejamos sensatos:
Não faça isto, permita-se à felicidade, aprendendo a perdoar do fundo do coração, se agarrando mais às boas lembranças do que às ruins.


