Ao mesmo tempo que criticamos, devemos sempre levar em conta que a sociedade israelense também tem muitos aspectos positivos. Uma das características marcantes desta sociedade é este tipo especial de amizade verdadeira, que simplesmente não existe em nenhum outro lugar.

Este foi o caso de Hanna (alteramos os detalhes para manter a sua privacidade), uma nova imigrante de 50 anos, divorciada e mãe de dois filhos já grandes e responsáveis, que fez Aliá sozinha. Ela deixou para trás amigos e família e se tornou uma cidadã israelense.

Ela alugou um pequeno, mas cômodo apartamento nos arredores de Jerusalém, e tendo deixado para trás inclusive um excelente emprego, ao menos tinha uma boa quantia como fundo de economias, do qual recebia uma pensão mensal – o suficiente para cobrir suas necessidades básicas e mais um pouco.

Após dois anos em Israel ela aprendeu a se socializar com os vizinhos, mas ainda se sentia uma “estrangeira”, alguém que nao pertencia aquele lugar ou que nao era “aceita” pelos demais. Ela era vista como uma “nova imigrante”, vendo tudo de cima.

Ela não tinha um emprego mas costumava se voluntariar em duas organizações diferentes. Em uma delas se ocupava na vizinhanca trabalhando com idosos.

Certo dia ela passou a ter um desagradável mal estar, o que se repetiu por algumas semanas. Hanna não levou a sério achando que nao passava de uma longa gripe. Certa manhã ela se sentiu pior do que nos outros dias, de tal modo que mal pôde chamar uma ambulância antes que perdesse os sentidos. Ela foi levada a um hospital e foi diagnosticada com um raro tipo de falha cardíaca, o que exigiria que ela seguisse uma dieta restrita, tomasse uma medicação e também ficasse em repouso, de cama, por pelo menos algumas semanas.

Os filhos vieram a Israel para organizar sua casa e ajudá-la com o que fosse preciso, porém depois de duas semanas tiveram que retornar para suas casas e suas atribuladas rotinas – de trabalho e familiar.

Hanna era forte, mas apenas após dois dias sem poder sair de casa entrou em pânico, então chamou Shosh, que era uma das suas boas amigas israelenses, procurando por conselhos. Shosh fez muitas perguntas sobre a sua rotina, suas necessidades diárias, suas finanças. A Hanna isto parecia um pouco demais, mas sob aquelas circunstâncias se limitou a responder as perguntas sem maiores questionamentos.

Shosh foi muito gentil e a ajudou por algumas horas, mas quando se foi novamente Hanna entrou em desespero.

Dois dias depois Shosh bateu na porta de Hanna, e depois de ter se desculpado pelo seu sumiço passou a explicar a Hanna como trabalhou para um plano que visava a ajudá-la.

Shosh comecou a explicar sobre o esquema que havia preparado para as próximas semanas, e quem faria o que e quando. Hanna nao entendeu nada, estava confusa e frustrada, até que as pessoas começaram a chegar em sua casa, até mesmo duas vezes na semana. Pessoas que ela encontrara no passado ou havia se voluntariado com elas, ou apenas vizinhos do prédio e muitos outros que ela sequer lembrava de ter visto alguma vez.

Nestas semanas ela não apenas teve supridas as suas necessidades básicas, como refeições prontas, mas tambem recebeu ajuda na limpeza e nas compras. Ela já nao estava mais sozinha, mas sim havia um fluxo constante de pessoas entrando e saindo, oferecendo ajuda, trazendo comida, etc.

Foi uma longa recuperação, mas Hanna aprendeu uma lição de solidariedade que apenas poderia sonhar; se não fosse pela sua doença, provavelmente ela jamais teria conhecido a verdadeira face “sabra”.

O fato é que, desde que ela teve esta extraordinária experiência, sentiu que teria que devolver um pouco do bem de volta a sociedade, de modo que decidiu criar um comitê na vizinhança com o objetivo de ajudar pessoas que necessitem de companhia, e oferecem assistência às pessoas com necessidades especiais.

Hanna já não se sente mais uma estranha – ela agora é parte da sociedade israelense, no que esta tem de melhor.