Menachem Mendel Morgensztern de Kotzk costumava dizer:
“Não há nada mais completo do que um coração partido.”
A dor do processo de imigração. Como um coração partido está ligado à Aliá?
Durante todos os anos de exercício da advocacia encontrei centenas de novos imigrantes, entre os mais bem sucedidos e os que deixaram o país de forma relutante; ou aqueles que saíram de Israel aliviados, deixando para trás apenas experiências negativas, sem boas memórias.
Aqueles que saíram daqui decepcionados, depois de tentar tão arduamente permanecer, são aqueles que de alguma forma foram esquecidos pela sociedade. São aquelas pessoas que, se fossem auxiliadas no momento certo, pelas pessoas certas, poderiam ter mudado seus destinos. Algumas vezes todas estas pessoas precisam de um empurrãozinho, mas infelizmente estamos tão ocupados consigo mesmos que acabamos esquecendo o que é compartilhar o bem com os demais.
Na verdade, responsabilizar a sociedade ou mesmo o sistema não parece justo, e nós temos uma abordagem mais realista e equilibrada. Devemos lembrar que o processo de assimilação dentro da sociedade israelense demanda muito esforço, de todos os lados. É chegado o momento de mudar a abordagem, e eu sugeriria uma abordagem muito mais honesta e sincera quanto àqueles que chegam a Israel como novos imigrantes.
Eu sei que isto pode soar bastante impopular, mas o fato é que “há algo de errado”. Muitas boas pessoas vêm a Israel com sonhos, apenas para deixar um coração partido depois de viver um verdadeiro pesadelo.
Será que, na qualidade de israelenses, nós temos alguma parcela de culpa na saída destas pessoas? Eu acredito que sim; tal como acredito que estaremos causando um dano irreversível ao dizer a elas exatamente o que querem ouvir, ao invés de dizer o que deveriam ou precisariam escutar.
Se você acredita que pode prejudicar, acredite que também pode corrigir.
(Rav Nachman de Breslev)
Será que podemos mudar o sistema e prevenir de algum modo que, pelo menos, o número de novos imigrantes que deixam Israel se reduza, devido ao fato de não terem conseguido se adaptar à realidade israelense? Novamente, a minha resposta é positiva.
Minha sugestão: a transparência como solução preventiva
Eu acredito que devemos mudar as táticas usadas atualmente. O governo israelense, Nefesh B’Nefesh, Agência Judaica, Ministério da Absorção e todas as demais organizações que lidam com a Aliá têm o mesmo objetivo: trazer novos imigrantes, o máximo possível, muitas vezes “a qualquer preço”.
No entanto é imprescindível dizer a verdade a eles, depois de mostrar a eles o que de fato acontece neste país (o melhor e o pior), após a advertência de que não se trata de um mar de rosas.
Ao invés disto devemos falar com eles como diziam os nossos sábios: “Israel foi adquirida em meio à dor e ao sofrimento.”
O idioma:
Antes de vir a Israel todos devem levar em conta que este não é apenas um privilégio, mas sim uma necessidade – ou se domina o idioma ou a pessoa enfrentará muitas dificuldades ao encontrar um emprego, entender tarefas básicas do dia-a-dia, lidar com bancos e principalmente com a burocracia israelense.
Finanças:
A nossa obrigação quanto àqueles que vêm a Israel não é dar a eles uma vida confortável, nem mesmo dar a eles nada além do que ajuda e assistência, como já fazemos em diversos ramos tal como seguro saúde gratuito, educação quase sem ônus e subsídios para os primeiros meses de permanência no país.
Educação:
Temos muito a aprender de outros locais neste aspecto, mas vivemos em negação já há muito tempo. Muitas pessoas no sistema educacional ainda acreditam que sabem tudo, que estão fazendo um excelente trabalho, etc. É uma pena porque na verdade isto não é verdade, mas ainda assim a mensagem acaba sendo a seguinte: “Venha a Israel, se integrem e aprendam de nós, porque nós somos os grandes especialistas.”
O fato é que, a meu ver, não há necessidade de contar mentiras ou mesmo dar uma impressão errada. Ao contrário, devemos dizer: “nós queremos a sua participação, sua opinião e suas sugestões.” Atualmente podemos oferecer muito pouco, como salas super lotadas, escolas em péssimas condições, nada de disciplina, muito pouca segurança pessoal entre os alunos, muito tempo livre, muitas férias e algumas vezes nem mesmo professores qualificados.
Conclusão:
Chegou a hora de parar de temer a própria sombra, e encarar Israel como de fato o é: O único lar judaico que nós temos, e que ainda não é um paraíso para se viver.


