Nós temos que aceitar a vida como ela é. Devemos fazer escolhas – algumas vezes difíceis – porém necessárias para que possamos alcançar nossos objetivos.

Este foi o caso de Harry e Sally – ou mais precisamente de Sally, no momento em que chegou o momento de fazer a escolha mais importante de sua vida – permanecer casada ou se divorciar de Harry. Como veremos a seguir ela optou pela sua liberdade; manter o casamento com o marido e fugir dos “amigos e da família”.

Sally conheceu Harry depois de ter se divorciado de Mark, um homem muito parecido com ela. Como casal foram um desastre; eram imaturos e muito dependentes principalmente de suas famílias e amigos. Eu os chamaria de “robôs”, que precisam sempre de orientação e de serem comandados. Estas pessoas precisam que seus botões sejam constantemente pressionados, ou ficam imóveis.

Depois do divórcio, Sally – que se recusou a admitir a sua culpa no rompimento do relacionamento – não foi à terapia e intensificou ainda mais a sua ligação com a família e amigos. O que quer que fosse dito a ela (ou melhor, comandado), ela aceitava imediatamente sem estar ciente da sua total falta de independência. Ao invés de mandar na sua própria vida ela deixou que outros o fizessem em seu nome.

Você conhece uma pessoa como Sally? Todos conhecemos. Uma pessoa que não admite as suas falhas e portanto jamais aceita ouvir os outros. Não perca seu tempo com uma pessoa como esta porque, na melhor das hipóteses, involuntariamente você se tornará um outro “apertador de botões”. Pessoas como ela precisam de mais do que sugestões, orientação ou um amigo; elas precisam de um profundo conhecimento de sua situação, além de uma boa terapia.

Sally conheceu Harry quando estava “na sua melhor forma”, em suas palavras. Ela se sentia livre, forte, independente e auto-confiante (na verdade ela estava desiludida e sentia que o problema em seu casamento era Mark, de modo que ela seria apenas uma vítima).

Quando Harry e Sally me pediram que redigisse um acordo de divórcio fiquei muito confuso: eu sabia se eles haviam me procurado para um divórcio ou para obter uma solução aos seus problemas. Meu sócio – que é mais racional do que eu – me disse que deveríamos apenas fazer o que pediram: como advogados havíamos sido contratados para redigir um acordo, e não para fazer terapia de casal.

No final das contas todos concordamos que o casal deveria ver um profissional – não qualquer psicólogo, mas sim um certo terapêuta que havíamos conhecido no passado e  no qual confiávamos como um profissional sincero e profissional.

Um ano após tê-los conhecido recebi uma ligação telefônica de Sally – não de Telaviv, onde eles viviam, mas sim de um pequeno moshav no norte de Israel, perto da fronteira com o Líbano. Eles queriam nos agradecer por ter salvado seu casamento.

Eu entrei em contato com o terapêuta (depois de obter permissão), estava muito curioso sobre como ele conseguiu fazê-los mudar de idéia; e ele me disse o seguinte: Sally era muito dependente de sua família, tanto no aspecto emocional (devido à falta de auto-confiança) quanto financeiramente (ela vinha sendo sustentada por eles desde a adolescência). Como disse antes ela era um robô, que para funcionar precisava que alguém lhe apertasse os botões.

Harry entrou em sua vida mas se recusou a fazer o que todos haviam feito até então. Consequentemente ela procurou os seus “amigos” e sua família. O divórcio era uma questão de tempo, e finalmente uma decisão teve que ser tomada – ou uma grande mudança teria que ser feita. Inicialmente ela optou pelo divórcio (momento em que ambos me pediram o acordo de divórcio), mas após algumas sessões de terapia eles começaram a ver a verdade.

Não foi nada simples. As mudanças eram difíceis e como me foi dito o casal esteve a ponto de desistir, algumas vezes, antes de finalmente poderem trabalhar no problema principal: a independência de Sally, ou seja, o seu desligamento da família e amigos.

Estes “amigos” agiam todos da mesma forma: como apertadores de botões. Eles não se importavam de fato com Sally como indivíduo, mas sim viam-na como uma marionete que poderiam manipular quando bem entendessem. Eles eram destrutivos para ela e seu casamento com Harry, o qual eles viam como mero “intruso”.

A família de Sally era ainda pior, que por algum motivo não podia vê-la feliz. Eles tinha inveja dela, tinham raiva: ela havia feito Aliá, se tornou religiosa, enquanto que eles ficaram na mesma cidade – assimilados e extremamente seculares, escravos do dinheiro que tinham (ou ainda ganhavam). Aos seus olhos Sally era teimosa e irresponsável.

Os problemas entre Sally e sua família eram variados e complicados. Ela estava muito chateada mas morria de medo deles, além de depender deles financeiramente, de modo que não podia se rebelar. Ao invés de jogar sua frustração na família ela o fez contra Harry, o homem que ela amava e que a amava mais do que qualquer outra pessoa.

Um final feliz

O casal decidiu então se afastar bastante dos amigos e da família, construindo uma nova vida, longe da influência negativa à qual vinham se submetendo.

Eu me tornei um amigo (amigo verdadeiro) do casal e fomos a alguns eventos juntos. Ela me disse recentemente que estava aprendendo a se tornar “independente de botões apertados”. O fato é que tratou-se de um processo gradativo e difícil, e ela ainda precisa de terapia, mas cada dia, como ela mesma classificou, “é uma nova conquista”.

Apesar de tudo a família de Sally nunca poderá entender o que se deu: para eles ela é apenas uma mulher insana e manipulada pelo seu marido cruel. Obviamente eles não a sustentam mais e ela teve que encontrar um emprego para contribuir com a renda familiar. Ela não pára de dizer o quanto é bom receber um contracheque no final do mês, com o conhecimento que adquiriu de seu próprio esforço.

Muitos de nós conhecemos pessoas com ela, e talvez, ainda que no sub-consciente, sejamos aqueles “apertadores de botões”, embora não tenhamos necessariamente más intenções. Nós tendemos a agir desta forma quando “o outro” se mostra uma presa fácil e mostra fraqueza, precisando sempre de um comando.

Sejamos sensatos:

Se você acha que o seu casamento vem sendo afetado pela opinião alheia, ou se sente pressionado pela família para se divorciar, talvez valha a pena considerar que pode estar sendo influenciado negativamente.

Lembre-se que esta é a sua vida e que, no momento em que os outros conseguirem o que pretenderem, você se verá sozinho, enquanto eles prosseguirão com as suas vidas.