Moishe e Sarah imigraram para Israel de Nova Iorque baseados na sua ideologia sionista, na faixa dos 30 anos, com as duas filhas jovens, Rachel de 11 anos e Ariela de 9 anos, se adaptando rapidamente à nova vida em Jerusalém. Ambos conseguiram um emprego com boa remuneração, e consequentemente puderam adquirir uma propriedade por meio de uma hipoteca de médio porte, 5 anos após a sua chegada em Israel. Eles também tiveram mais dois filhos, e à medida que a família crescia, sentiam uma grande satisfação já que tudo parecia estar indo bem, sendo eles pais de crianças tão maravilhosas.

Quando tudo se transformou…
Infelizmente as coisas iriam mudar. Quando Rachel entrou na adolescência deixou de ser uma menina observante e de frequentar a escola regularmente, tendo posteriormente abandonando completamente os estudos, sem ao menos concluir a sua Bagrut (matrícula no ensino médio).

Por Rachel ser maior de 16 anos, os pais estavam limitados nos seus direitos legais a influenciá-la e coagi-la, sem poder obrigá-la a retomar os estudos. Ela passou a circular vários dias e noites pelo Kikar Tzion, em Jerusalém, uma área notória de drogas, bebidas alcóolicas e crianças de rua problemáticas.

Os pais tentaram em vão salvar a filha do seu próprio comportamento auto-destrutivo. Eles tentaram envolver rabinos, psicólogos, policiais próximos à família e um advogado, tudo isto sem obter resultados positivos. Rachel não cooperava se tornando cada vez mais insubordinada. Os pais não tinham controle sobre ela e o sistema legal trabalhava contra eles, ao impôr muitas limitações no que se referia ao que os pais poderiam ou não lhe restringir.

Rachel encontrou conforto nas drogas e no consumo excessivo de álcool, tendo adotado estes dois fatores como parte de sua nova vida. Especula-se até mesmo se ela pode ter se envolvido em algum tipo de prostituição.

Um sábado à noite, o pai recebeu o telefonema de um hospital local, informando a ele que Rachel estava em coma após a ingestão excessiva de bebidas alcoólicas e também de pílulas de ecstasy. Ela estava fora de perigo, mas seus pais foram requeridos a buscá-la pelo fato de ela ainda ser considerada menor de idade. A enfermeira informou ainda que o serviço social havia sido notificado da situação.

Passaram-se alguns dias até que Rachel “voltasse ao normal”. Seus pais passaram a ser continuamente interrogados pela polícia e pelos assistentes sociais. Muitas das sessões estavam repletas de acusações dos assistentes sociais acerca de uma aparente inaptidão em lidar com sua filha e de uma negligência quanto às suas obrigações de pais. Já a Polícia tinha um outro foco na inquirição dos pais de Rachel, já que, aparentemente, ela vinha comprando drogas de um traficante que vinha sendo muito procurado pela Polícia. Embora a questão de onde o dinheiro para compra das drogas saía permanecesse sem resposta, não havia dúvidas de que ela estava de fato cometendo este ato ilícito.

Rachel se recusou a cooperar com a Polícia, tendo sido indiciada e trazida diante dos tribunais para apurar as suas responsabilidades. Foi concedida liberdade condicional por um ano, tal como um período de tempo de suspensão de prisão. Foi o fim do sonho de Rachel em servir as Forças Armadas de Israel. Agora com um registro criminal ela foi liberada, e os pais tiveram que fazer uso de milhares de dólares para cobrir as taxas judiciais. A família inteira estava em ruínas.

Rachel passou a usar a residência como o seu próprio parque de diversões. Com a liberdade concedida pelos 18 anos, Rachel tinha a possibilidade de fazer o que bem entendesse, permanecendo incontrolável. A todo momento ela manipulava os sentimentos de culpa dos pais em seu favor, os quais estavam se sentindo pessoalmente responsáveis pelo destino infeliz da moça, e incapazes de lidar com os próprios sentimentos de falha e de culpa. Além do mais, estavam constantemente sendo alvo de julgamentos e afirmava-se, à sua volta que, caso tivessem agido de outra forma, a jovem não teria chegado a estes extremos.

Sarah começou a frequentar sessões de terapia para ajudá-la a lidar com o stress que se instalou na sua vida e em casa, e cada vez mais os recursos da família foram usados para este objetivo. A deterioração da situação econômica familiar culminou com o fato de a família ter se tornado inadimplente quanto aos pagamentos da hipoteca, passando a encontrar dificuldades até mesmo em suprir as necessidades básicas da família.

Rachel se sentiu mal com esta situação, mas ela apenas se via como uma vítima “aprisionada”, dentro de um círculo vicioso de maus amigos e decisões equivocadas. Rachel imediatamente passou a culpar seus amigos, seus pais, e qualquer outra pessoa, para que não tivesse que admitir qualquer responsabilidade que pudesse ser atribuída a ela quanto à conturbada nova realidade familiar.

No final das contas a família levou quase dois anos para se recuperar. Finalmente Rachel foi morar em um pequeno apartamento com uma colega, trabalhando como garçonete, e como declarou posteriormente aos pais, não estava “limpa”, ainda que estivesse retomando as rédeas de sua vida.

O que não mudou foi a culpa que estava consumindo ambos os pais. Eles perderam a sua alegria da juventude e se tornaram muito agitados, furiosos e extremamente exigentes com os demais filhos. Sarah, ainda em tratamento terapêutico, convenceu Moishe a juntar-se ela, mas apenas após um contato com outros pais que passaram pelos mesmos problemas, eles começaram a relaxar e liberar parte do peso que estavam carregando sobre suas costas. Isto foi muito importante já que a culpa estava dominando as suas vidas e prejudicando todo o núcleo familiar.

Hoje em dia…
Rachel, atualmente com 23 anos, está se esforçando de todas as formas possíveis para completar a sua Bagrut. Ela é uma aluna brilhante e poderá alcançar seu objetivo sem problemas, e com boas notas. Ela está livre do vício e trabalhando ativamente para se sustentar; embora não tenha voltado para casa, vê os pais e irmãos regularmente. Ela consentiu ainda em participar das sessões de terapia familiar com seus pais.

Rachel jamais contará toda a sua história. Ela tem um arquivo criminal ativo que não poderá ser cancelado em menos de alguns anos. Ela terá dificuldades em encontrar um emprego, mas poderá eventualmente encontrar algo que se adeqüe às suas habilidades e às limitações sociais.

Por que os fatos se deram desta maneira?
Embora nós não possamos compreender totalmente o que pode ter dado errado, devemos levar em conta que cabe a Rachel a responsabilidade exclusiva sobre seus atos. Ninguém a forçou a usar drogas ou a agir daquela forma, tendo sido a sua decisão final trilhar o caminho descrito, apesar do suporte e apoio incondicional dos seus pais.

Sejamos sensatos:
Todos nos esforçamos para agir da forma mais adequada, no entanto, há situações da vida nas quais se perde o controle sobre os atos das pessoas. Às vezes não há soluções à vista, e saber a quem e a onde recorrer para ajudar a solucionar o problema pode fazer uma grande diferença a longo prazo, em havendo esta possibilidade. Rachel selou o próprio destino decidindo por não cooperar. Ela fez as próprias escolhas e agora teve que pagar o preço, ainda que tenha sido apenas anos depois. Cabe ressaltar que os seus atos não geraram apenas consequências a nível pessoal, já que toda a sua família foi seriamente atingida. Devemos considerar que os pais fizeram o melhor que puderam, e é isto que se deve esperar de todos à nossa volta.