O obstáculo do idioma:
Tudo deveria ser simples… nós podendo dizer o que pensamos, e o outro lado compreendendo corretamente o seu sentido; no entanto, na prática o “idioma” pode constituir um entrave para cada um de nós. Qualquer novo imigrante sabe como é difícil, algumas vezes, a obtenção de uma mensagem clara, tendo-se como resultado a experiência da frustração diante da dificuldade de expressão.
Um toque pessoal:
Eu vivo em Israel desde 1977 – ou seja, a maioria da minha vida. Fiz Aliá do Brasil com a idade de 19 anos, sem qualquer conhecimento de Inglês ou Hebraico. Eu sabia um pouco de Espanhol, mas isto não me ajudou muito. Quanto ao Português, este era totalmente inútil. Eu percebi que teria que aprender o novo idioma, e rápido. Foi justamente isto que eu fiz.
O problema surgiu alguns anos mais tarde, após ter aprendido o Hebraico e o Inglês, sendo capaz de falar ambas fluentemente, quando subitamente me vi desorientado em um mar de idiomas. Como muitas pessoas, eu contava com a minha língua mãe. Fora de casa eu usava principalmente o Hebraico, mas com a minha família falava o Português. Eu só lia em Inglês. Quanto à escrita, nunca pude escrever corretamente em nenhum idioma, também em parte devido ao fato de ter dislexia. Conclusão: hoje em dia a minha compreensão da leitura é melhor em Inglês – exceto em assuntos legais, mas tenho mais facilidade em me expressar em Hebraico. Parece complicado, certo? Bem, acreditem ou não, eu não sou o único.
Seja prudente:
Quando estiver discutindo assuntos importantes, use apenas o idioma com o qual se sinta perfeitamente confortável. Não procure improvisações ou atalhos. Se precisar de ajuda, procure uma pessoa na qual possa confiar.
O modo israelense de falar:
Vocês já devem ter notado que os israelenses falam alto e gesticulam bastante com as mãos; simultaneamente, o seu discurso freqüentemente é muito vago e impreciso. Esta é parte da conhecida “cultura israelense” e não significa que eles estejam sendo agressivos ou hostis com você, na verdade não mais do que o usual. Os israelenses gostam de ajudar e tentarão auxiliá-lo ainda que não façam idéia sobre o que está se passando. Conseqüentemente, eles podem lhe informar as direções erradas e prestar informações equivocadas.
E sabem o que é realmente interessante? É que nós nos acostumamos com este comportamento e, com o tempo, acabamos agindo da mesma forma.
Um bom conselho:
Não leve os israelenses muito a sério! Se você seguir estas orientações, será mais simples lidar com algumas peculiaridades: você terá maior facilidade em ignorar uma pessoa que esteja sendo desagradável e desconsiderar comentários idiotas do tipo: “Então por que você está aqui? Volte para o lugar de onde veio!”. Acreditem-me, não é esta a verdadeira intenção deles.
Agindo corretamente:
Tina morava em Israel há poucos meses quando policiais bateram à sua porta. Embora ela desconfiasse do que pudesse ter acontecido, isto a surpreendeu. “Bem, agora é o momento de usar o meu talento” ela pensou consigo mesma.
Alguns dias antes Tina teve uma briga com o namorado israelense. Na verdade foi mais de uma briga – foi uma batalha completa. Eles fumaram um pouco de erva e estavam “altos” quando seu namorado resolveu zombar de Tina e seu sotaque em Hebraico. Os sentimentos estavam à flor da pele, e após algum tempo Tina e o namorado passaram a esmurrar um ao outro intensamente. A agressão continuou até que eles souberam que os vizinhos haviam chamado os policiais – o que fez com que ambos deixassem o apartamento imediatamente.
Ambos estavam certos de que a polícia não invadiria o apartamento às duas horas da madrugada, e que a melhor forma de evitar um confronto seria “desaparecer” por um tempo. Vinte e quatro horas depois eles retornaram e limparam o local, eliminando todo e qualquer vestígio da droga utilizada.
Alguns dias depois, no entanto, a Polícia voltou a procurá-los, para que comparecessem à Delegacia de Polícia para averiguações.
Na Delegacia, Tina se comportou como em uma verdadeira encenação: soluçando, ela contou aos policiais como ela se sentia péssima, como precisava de cada centavo para sobreviver, o quão “mau” seu namorado havia sido e como ele deu início à agressão. Ela falou em Inglês e uma policial traduziu as declarações para ela. A tradutora falava um Inglês decente, como descobri depois, e nada além disto.
Bob me ligou mais tarde, tendo passado 24 horas na prisão e após ter sido acusado de uso de entorpecentes e agressão. Ele pagará caro por este incidente: em primeiro lugar terá que pagar uma quantia razoável em taxas e honorários. Pior do que isto, apesar do acôrdo realizado com a Promotoria, seu futuro será irremediavelmente atingido: ele não será mandado para a prisão, mas terá um registro criminal. Não tenho certeza sobre o que aconteceu com Tina, mas suponho que ela tenha conseguido um acôrdo mais favorável. (talvez apenas uma acusação de “uso de substância ilícita leve”).
A diferença:
Tina entendeu o “jeitinho israelense”: ela chorou e fez de tudo para parecer arrasada. Por outro lado, Bob procurou demonstrar força e auto-confiança – em resumo, ele decidiu brincar de “Super Homem”. Como em todo lugar no mundo, em Israel também é mais vantajoso bancar a vítima, já que o sistema invariavelmente tende a simpatizar com ela.
O maior erro de Bob foi tentar degradar a imagem de Tina. Após a leitura dos registros da investigação, percebi que Bob se comportou como um típico israelense valentão, e pagou um preço alto pela sua conduta.
Sejamos sensatos:
Todos nós cometemos erros, e há vezes nas quais podemos dispôr do auxílio de um advogado. No entanto, quando se faz necessária uma orientação especializada, nem sempre ela surte o efeito desejado e pode amenizar os efeitos de uma conduta impensada.
Devemos considerar que a forma mais adequada de se comportar diante de uma situação de crise é com humildade. Não procure parecer condescendente. Seja firme mas modesto, e caso não saiba como agir, o silêncio pode ser uma excelente solução!

