Introdução

Acredito que o impacto desse artigo, poderá ser uma grande vantagem para aqueles que verdadeiramente desejam viver em Israel e não apenas morar em Israel. Quando eu digo morar me refiro aos brasileiros que moram em Israel, mas continuam a viver com a mente no Brasil.

Prólogo

Alguns dias atrás, encontrei na sinagoga de uma capital brasileira, uma pessoa que me cumprimentou cordialmente e quando entendeu que eu morava em Israel, há mais de 45 anos, me perguntou: “como está lá em Israel”?

A pergunta por si só, deveria ter acionado um alarme interno, mas não percebi que estava caindo numa cilada e respondi com palavras que eu acreditava ser a realidade atual de Israel.

Eu respondi que estava tudo muito ruim nesse momento; disse que Israel como o mundo todo, está sofrendo economicamente com a guerra na Ucrânia e que o atual governo não está fazendo o que deveria e está causando e irá causar ainda muitos danos a curto e longo prazo para o Estado (aqui usei palavras mais ríspidas).

A Telenovela

A partir desse momento eu já havia caído na “cilada”. O que escutei do Sr. Ploni (vamos chamá-lo assim), foram frases vindas da enorme falta de conhecimento geopolítico e socioeconômico. Infelizmente demorei a entender que na realidade foram frases vindas da dor do fracasso.

Primeiramente fui chamado de “Meraguel” (espião) assim como foram denominados os espiões que reclamaram de Israel no deserto depois de terem saído do Egito, depois fui chamado de outras coisas que seria melhor não citar nesse artigo.

O Sr. Ploni fez questão de comentar que já havia morado em Israel por vários anos, mas decidiu omitir que sua imigração havia sido um fracasso e por isso ele retornou para o Brasil.

Meguilat Rut מגילת רות e a Galut

(מגילת רות) א,ב וְשֵׁם הָאִישׁ אֱלִימֶלֶךְ וְשֵׁם אִשְׁתּוֹ נָעֳמִי וְשֵׁם שְׁנֵי-בָנָיו מַחְלוֹן וְכִלְיוֹן, אֶפְרָתִים–מִבֵּית לֶחֶם, יְהוּדָה; וַיָּבֹאוּ שְׂדֵי-מוֹאָב, וַיִּהְיוּ-שָׁם

Os nossos sábios interpretam o sufixo dessa frase (וַיָּבֹאוּ שְׂדֵי-מוֹאָב, וַיִּהְיוּ-שָׁם) de uma forma simples e peculiar:

” קל מאוד לעזוב את ארץ ישראל לטובת ארצות הגולה במיוחד בימנו עם תחבורה זמינה וזולה אבל לחזור לישראל קשה מאוד”

Traduzindo: É muito fácil deixar Israel e preferir a diáspora, especialmente hoje em dia onde o transporte é eficaz, rápido e barato, mas voltar para Israel e deixar a Galut גלות é uma tarefa muito mais difícil.

כנראה היה זה “אחד העם (אשר צבי גינצברג) אשר אמר את המשפט המפורסם: “קל יותר להוציא את היהודי מהגלות מאשר את הגלות מהיהודי”

Traduzindo: Parece que foi EHAD A’AM (Asher Tzvi Gintzberg) quem disse a frase famosa: é mais fácil tirar os Judeus da Galut do que tirar a Galut de dentro dos Judeus.

Espião?

O que os espiões falaram da terra prometida naquele momento? Eles espiaram a terra por 40 dias. Viram que lá havia muitas coisas boas: cachos de uvas, romãs, figos, leite e mel! Entretanto, a maioria dos espiões preferiu enaltecer a adversidade e comentar: “As cidades são fortificadas e muito grandes; e ali vimos os filhos de “Anaquim” (gigantes)”.

Na verdade, essa parte do relato foi exata e verdadeira e o erro deles foi na interpretação originada pelo medo de enfrentar as dificuldades na terra prometida. O resultado foi que o povo teve muito receio em entrar em Israel e enfrentar uma nova e desconhecida realidade.

Josué e Kalev, que estavam entre aqueles que tinham espiado a terra prometida, não concordaram com essa interpretação do relato dos espiões e assim falaram a toda a congregação dos filhos de Israel: “A terra pela qual passamos para espionar é extremamente boa. Se for da vontade de Deu’s, Ele nos levará a esta terra, uma terra que flui com leite e mel. Basta não se rebelar contra Deus, nem temer o povo da terra … Deu’s está conosco e não há o que temer”.

A missão dos espiões e nossa missão como Judeus vivendo em Israel

A missão dos espiões não era outra, senão relatar os fatos sem acrescentar suas opiniões, seus receios, suas dúvidas ou qualquer outro ponto no relatório.

Nossa missão é viver em Israel (não somente morar). Viver em Israel, significa se sentir e se comportar como parte da terra e da sociedade, aprendendo a discernir entre o que está bom e o que está mal em Israel naquele momento. Não apenas reclamar do que está errado, mas sim apontar esses erros para concertar e melhorar a cada dia.

Nós que vivemos em Israel, não somos meros relatores; nós convivemos com os acontecimentos e fazemos parte da sociedade e somos coletivamente responsáveis pelos acontecimentos sejam eles quais forem.

Infelizmente, são muitos aqueles que sempre reclamam de tudo e que não aprenderam ainda a técnica da crítica construtiva.

Epílogo

Não importa se Israel está bem ou mal e nem mesmo se estamos gostando ou não de viver aqui. Não existe nenhum contrato entre o povo Judeu e Deu’s em que haja algum tipo de promessa que a vida seria fácil em Israel e nem mesmo que seria uma vida segura ou uma vida boa por todo o tempo.

O único contrato que existe diz que o povo Judeu deve morar e viver em Israel, amar o próximo e amar a terra – incondicionalmente.

Não adianta se esconder atrás de mentiras e ignorar os “desafios” que infelizmente muitos chamam de “dificuldades”. Não é necessário temer a realidade, mas sim enfrentá-la realisticamente e com coragem.

Eu nunca cogitei a possibilidade de deixar Israel. Em nenhum momento apesar de estar enfrentando muitos “desafios” como sempre enfrentei, com a fé de que Israel não é uma opção existente somente quando tudo está bem. Viemos para ficar!

O Cuzarí

Um dos graves erros de muitas IESHIVOT, é não dar mais ênfase no estudo do livro escrito pelo grande sábio e filósofo judeu Rabi Iehuda Halevi que é sem dúvida alguma, um dos alicerces obrigatórios na construção de uma identidade judaica e no entendimento da importância de terra de Israel na vida de um Judeu.

O medo

O medo transforma as coisas mais simples em dificuldades que podem se tornar tragédias e fracassos.

Se o famoso e legendário comandante que mudou o rumo da guerra de Iom Kipur em 1973 Coronel General Avigdor Kahalani (תת אלוף אביגדור קהלני ) na batalha de Emek Abacha (קרב עמק הבכא) fizesse o erro de interpretar as enormes forças do inimigo que estavam a sua frente como uma “dificuldade insuperável”, o fim dessa guerra poderia ter tido um resultado muito mais triste para os Israelenses.

Foram a coragem e a forte crença de saber que para esse momento ele (Kahalani) foi criado, que trouxeram a vitória monumental contra toda e qualquer chance e que no final, provavelmente mudou o rumo da guerra a nosso favor

Não temos uma outra terra

Nós somos combatentes nessa batalha diária onde devemos amar o que temos, reclamar menos e fazer muito mais para tornar a terra de Israel um paraíso, não esquecendo, porém que seja o que for ou como for

 

אין לי ארץ אחרת  Ein Li Eretz Aheret

Traduzindo: Não tenho outra terra para mim