Um marido sem lar:

Harry e Sally não tinham um casamento feliz; eles estavam se esforçando para permanecerem juntos em uma situação muito difícil, talvez a mais difícil possível – um segundo casamento envolvendo os filhos de outro relacionamento.

Harry estava criando quatro dos filhos de Sally provenientes do seu casamento anterior, um erro grave. Ele deveria se preocupar em cuidar de si mesmo e não em criar os filhos dos outros. O fato é que apenas algumas poucas pessoas “abençoadas” tem a possibilidade de fazer isto; são pessoas que conseguem lidar com este desafio. A maioria dos padrastos e madrastas deveriam se considerar satisfeitos pelo fato de sobreviverem a esta dificuldade, ainda sendo felizes e com um segundo casamento bem sucedido.

O desespero de Harry

Eu tentei descobrir o que estava tão errado, mas quanto mais tentava compreender mais confuso ficava. Harry ainda amava Sally, então por que se divorciar dela? E apenas após a audiência no tribunal, quando conheci os filhos de Sally, descobri qual o problema. Tudo se tornou muito claro, despertando  lembranças de uma experiência própria nada agradável.

Foi um processo breve. Após duas audiências e alguns rascunhos chegamos a um acordo de Divórcio bastante equilibrado. Eu nem pensei em tentar propôr uma terapia de casal já que aquele era um caso perdido. Para se salvar um casamento é preciso que todos tenham este propósito de reconciliação. Neste caso nós tínhamos apenas uma parte, talvez duas, mas definitivamente não todos – não os filhos.

Harry me disse que nos últimos 18 meses ele fazia de tudo para não ter que voltar para casa, não ver as crianças. Ele também me disse que sentia muita falta de Sally e o quanto o desagradava fazê-la sofrer.

Sally via o casamento como um acordo conveniente o qual permitia uma “folga” na responsabilidade de criar seus filhos. Assim sendo, se algo desse errado ela sempre poderia culpar Harry.

Eu dei a Harry o seguinte para ler:

“Casa é o lugar onde podemos ser nós mesmos e aceitar a nós mesmos para o bem o mal, o diabo e o anjo, o santo e o pecador. Casa é o lugar no qual podemos rir e chorar, onde possamos encontrar alguma paz dentro do caos e da confusão, onde somos aceitos e de fato amados pelos outros precisamente pela nossa pluralidade. A casa é o local ao qual nós pertencemos, onde nos adaptamos precisamente devido à nossa dificuldade de adaptação.” (“The Spirituality of Imperfection” de Ernetz Kuts e Katherine Ketcham – pág. 191).

Harry me olhou incrédulo e disse: “Agora percebo que nunca me senti bem recebido pelos filhos dela – nunca.”

Esta história não é exclusiva de Harry; muitos padrastos e madrastas se sentem excluídos e não são bem recebidos no seu próprio reino – a sua casa.

Por que escrevo estas histórias?

Elie Wiesel escreveu o seguinte no seu discurso, na ocasião em que recebeu o Prêmio Nobel:

“Ninguém é capaz de reconhecimento como uma pessoa que emergiu do Reino da Escuridão. Sabemos que cada momento é um momento de graça, cada hora é uma dádiva; não compartilhá-la poderia significar uma traição. As nossas vidas já não pertencem apenas a nós; elas pertencem àqueles que precisam de nós desesperadamente. … E por este motivo eu prometi nunca silenciar sempre que seres humanos estejam sofrendo e sendo humilhados. Nós devemos sempre tomar partido. A neutralidade favorece o opressor, nunca a vítima. O silêncio encoraja quem atormenta, nunca aquele que é atormentado.”

Eu escrevo estas histórias reais tristes e felizes, sobre a vida em Israel e sobre casamento e divórcio, porque decidi nunca ficar em silêncio. Eu acredito que a minha experiência com tantos casos e diferentes clientes, e até mesmo a experiência pessoal com casamento e divórcio, poderão influenciar positivamente as pessoas, e consequentemente a sociedade. O meu objetivo é tornar Israel um lugar melhor para se viver, para que se forme uma sociedade mais forte e estável, e acima de tudo, um lar judaico de verdade.

Assim sendo, se por meio destes artigos eu puder prevenir ao menos uma família, todos os anos, de voltar ao seu país de origem; ou se puder salvar um único casamento que seja, me sentirei completo e muito satisfeito.