Introdução:
Esta não é uma dissertação acadêmica nem pretende ser um alarme para evitar segundos casamentos, mas sim um texto apresentando os fatos que circundam os aspectos jurídicos e psicológicos de um segundo casamento. Isto poderá parecer polêmico, mas trata-se de um documento baseado em informações coletadas de fatos reais.

As estatísticas a seguir apresentadas não depõem em favor dos segundos casamentos. Em geral estes acabam gerando mais conflitos do que os primeiros casamentos, tanto no que diz respeito a complicações legais quanto relativamente a conflitos em âmbito criminal. Além do mais, a taxa de Divórcios nos segundos casamentos é muito mais elevada do que nos primeiros casamentos.

No final das contas caberá a cada indivíduo decidir como agir, ressaltando-se que, racionalmente, estas decisões devem ser tomadas com plena consciência acerca dos possíveis desdobramentos. Esta é a questão que estarei abordando aqui.

Todos os exemplos apresentados a seguir (sejam os relativos ao casamento “tradicional” ou as uniões estáveis) envolvem crianças menores de 18 anos (menores de idade, segundo a lei israelense) que vivem com apenas um dos progenitores.

Duas categorias de segundos casamentos:

1. O pai divorciado e os seus filhos:
Na maioria dos casos se confere às mães a custódia dos filhos e não ao pai. Portanto, se as crianças estão com o pai em geral há circunstâncias que justificaram esta variação da norma:
a) Uma mãe inapta (por razões médicas)
b) Uma mãe que optou por emigrar (ou retornar ao seu país de origem)
c) Uma mãe que foi considerada inapta pelos tribunais (após uma avaliação psiquiátrica)
d) Uma mulher viciada em drogas ou álcool, que não tem capacidade de criar seus filhos, etc
e) Outros motivos não específicos baseados na decisão de um magistrado, já que eles podem decidir sobre a aptidão da mãe ou do pai, dependendo do caso em questão. Embora boa parte destas sentenças sejam objetos de recursos e de ponderação nos tribunais superiores, não se dá provimento à maioria deles.

2. A mulher divorciada com seus filhos, e o marido “ausente”:
Esta situação é muito bem conhecida no mundo dos pais divorciados. Nesta situação a mãe é abandonada pelo seu marido ou ex-marido, o pai de seus filhos, durante ou após os procedimentos do Divórcio. Consequentemente ela se torna a única provedora da família, a única que na prática se responsabiliza pelos filhos.

Na maioria destes casos a guarda compartilhada pode ter sido determinada, mas De Facto ela é a única que está presente na vida dos filhos. Muitas vezes o pai não desapareceu completamente. Ele ainda está está circundando a área mas não está participando no cotidiano das crianças, e geralmente também não presta um suporte financeiro.

Tipicamente, este tipo de pai tende a aparecer esporadicamente quando sente que é a oportunidade certa, de modo que possa mostrar aos filhos como “eles são verdadeiramente importantes para ele” e como “ele é carinhoso e dedicado”! Infelizmente estes tipos de pais têm o seu próprio interesse como objetivo e não o bem estar das crianças.

As implicações relacionadas a uma mulher divorciada com um “marido/ex-marido ausente”:
É injusto esperar que um pai ou uma mãe sejam sempre flexíveis, compreensivos ou sensatos diante da sua nova situação. No entanto há que se traçar objetivos em conjunto e ter a intenção de se trabalhar juntos no sentido de possibilitar a todos uma boa convivência, bem como aprender a lidar com as adversidades de forma mais flexível. Quando se procura uma opinião profissional e assistência antes de esta nova célula familiar se formar, haverá mais chances de se alcançar um equilíbrio e uma convivência harmoniosa.

Entretanto não há garantias de que estas medidas levarão a um final feliz. Em muitos casos nem todos os ânimos poderão ser apaziguados, e a maioria dos envolvidos não terão sucesso em deixar de esperar que as suas necessidades e desejos sejam servidos em uma bandeja de prata. Esta conduta mais se assemelha a uma batalha fadada ao fracasso desde o início, e apenas se ambos os lados estiverem dispostos a renunciar ao seu desejo de estarem certos e saírem vitoriosos, existirá uma boa chance para que as coisas dêem certo. Não há vitórias ou fracassos absolutos – sempre se perde ou ganha alguma coisa!

Três situações que exigem atenção:
1. Se/quando o pai biológico é envolvido no conflito – há que se evitar esta ocorrência de todas as formas possíveis, já que é extremamente prejudicial para qualquer novo casal quando a figura do pai ausente é trazida ao conflito pelos filhos, uma tática que eles provavelmente tentarão fazer uso.

2. Quando as crianças entendem que podem ter um novo parceiro para dirigir as suas queixas e insatisfação: a polícia e o sistema – uma vez que uma destas forças exteriores passa a fazer parte dos fatos, isto em geral leva ao final do casamento. Recomenda-se fortemente a consulta a um bom advogado criminal no momento em que houver o mais leve sinal de suspeita de que os menores podem estar usando esta arma ou pretendendo fazê-lo, tendo em vista o seu próprio benefício.

3. O envolvimento dos serviços sociais – outra carta especialmente perigosa que pode ser jogada e poderá, na maioria dos casos, levar ao envolvimento com a polícia. Isto deve ser evitado a todo o custo!

a. Os padrastos são as figuras mais vulneráveis sujeitas a perseguições em um segundo casamento, e se há enteadas envolvidas as coisas se complicam ainda mais. Israel não é uma democracia completa, e o sistema legal é ainda menos democrático. Nós somos uma das poucas democracias na qual uma pessoa pode ser considerada culpada até prova em contrário.

b. Se surgir em um segundo casamento uma situação na qual um caso criminal foi aberto contra o padrasto (ou seja, molestação, abuso sexual, comportamento inadequado, etc), as chances de se salvar o casamento se aproximam de zero (tal qual as chances de se encerrar o caso com uma decisão favorável ao padrasto).

4. Uma outra hipótese comumente encontrada é quando a mãe se torna extremamente super-protetora dos seus filhos. É quase impossível salvar um casamento quando a mãe age emocionalmente, procurando “proteger” os seus filhos. Para que isto aconteça basta que ela sinta que os filhos correm algum risco, o que consequentemente levará ao despertar do seu instinto materno.

Uma mulher que se sente “atacada” defenderá os seus filhos em quase todas as situações, mesmo as desprovidas de lógica. Muitas vezes este é o resultado dos sentimentos exacerbados de responsabilidade pelas crianças, quando se vê como única provedora, e frequentemente a emoção prevalecerá sobre a razão. Uma mãe superprotetora pode ser o pior pesadelo de um padrasto, deixando-o sem qualquer chance de argumentar, restando a ele apenas se afastar de modo que poderá se sentir como um intruso. Por experiência própria posso afirmar que esta é a principal motivação dos Divórcios, dentro dos segundos casamentos.

As implicações relacionadas ao pai divorciado e seus filhos:
Como deve imaginar, também há muitos conflitos quando tratamos do processo de aceitação de uma nova madrasta. As crianças tendem a ser mais reservadas, menos amigáveis e menos flexíveis do que quando estavam com a sua mãe biológica.

A nova mãe tende a se tornar uma “adversária inconsciente” da sua mãe biológica, gerando-se assim muitos conflitos internos e acarretando menos empatia e simpatia de todos, inclusive por parte da família do pai. Este é um erro comum e uma conduta desagradável, mas infelizmente acontece com frequência.

O pai não se diferencia da mãe neste aspecto, e poderá se tornar superprotetor quanto aos seus filhos, de modo a gerar um relacionamento desequilibrado onde as crianças poderão vir a contribuir com o ato de jogar um dos responsáveis contra o outro.

As implicações relativas ao envolvimento de conselheiros:
Quanto mais complicadas as coisas forem, mais “conselheiros”, (amigos, família, etc) conhecerá e mais conselhos você irá receber! Dê a eles um pequeno espaço e a invasão não terá fim. Tenha a certeza de que quanto mais permitir interferências na sua família, menor será a possibilidade de resolver os conflitos de forma autônoma. Tenha em mente que eles estarão expressando as suas opiniões, e não falando de verdades absolutas. Você deve saber o que é melhor para a sua família, então certifique-se de deter o poder de decisão nas mãos, apenas recebendo auxílio de um terceiro cuja assistência deseje de fato receber.

Duas abordagens equivocadas envolvendo padrastos/madrastas:
· O padrasto/a madrasta pode ver o seu relacionamento com o progenitor biológico como algo próprio deles e deseja receber total atenção e concentração do seu novo cônjuge, sem considerar que é natural que ele aja como parte da família como um todo, o que inclui as crianças também!

· Outro comportamento equivocado neste assunto é o ato de ser um padrasto/madrasta invisível, alguém que sempre se mostra amável com as crianças, sem se envolver nos conflitos diários. Quanto mais jovens as crianças forem, mais ilógico é esperar ser bem sucedido ao se comportar como um padrasto/madrasta que não interfere na convivência familiar. Quanto mais problemáticos os menores forem, além das novas questões com as quais terão que lidar com o Divórcio dos pais, mais difícil será permanecer como um espectador neutro, sem qualquer envolvimento.

Conclusão:
Após o Divórcio, em geral as pessoas querem reconstruir as suas vidas. Quando uma pessoa decide dar início a uma nova vida, deverá entender que há um preço a ser pago. Nada será como antes do Divórcio ou mesmo após este evento, antes de contrair as novas núpcias. Se uma nova célula familiar tiver que ser criada, esta deverá levar em conta a necessidade do uso das ferramentas adequadas para que se obtenha sucesso.

Fique atento:
· Planeje as coisas e esteja preparado. Você não pode prever o futuro ou evitar eventuais complicações que venham a aparecer.
· Não se precipite; use todo o tempo necessário para a tomada de uma decisão consciente.
· Esteja ciente dos desafios que poderá vir a enfrentar.
· Tenha um plano alternativo para pôr em prática, em caso de necessidade.
· Não se deixe levar pelas emoções por mais intensas que elas sejam. Você deve ser racional e realista.
· Se porventura alguma coisa “ruim” acontecer, é melhor recuar do que esperar que seja tarde demais.