Eu já ouvi algumas vezes as pessoas comentarem o quanto lhes parece fácil ser advogado. Quando me procuram, em geral as pessoas estão desesperadas e contam comigo para orientá-las no sentido de se livrarem de seus problemas – a não ser que o meu conselho não seja o que esperam ouvir. Neste artigo lhes darei um breve exemplo de um fato que aconteceu em um dia da MINHA vida.

 

Há alguns dias atrás uma nova imigrante (como ela alegou quando me procurou) a qual ajudei gratuitamente no passado, me mandou o seguinte e-mail:

“Olá Tzvi,

Posso te fazer uma pergunta?

O meu banco me telefonou – uma empresa depositou 500 shekels três vezes na minha conta de poupança nos meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro – aparentemente como salário de alguém que deu o número errado da filial bancária. Em Janeiro eu saquei dinheiro desta conta – eu não sabia que este dinheiro não era meu e não entendo muito Hebraico – eu usei a conta e a minha filha também, além de ter dado o número desta conta para donativos do meu trabalho de caridade, de modo que pensei que não havia nada de errado. Eu saquei 1000 shekels, os outros 500 shekels foram depositados na conta em Fevereiro, então ainda estavam lá quando o banco ligou e obviamente eu disse a eles para devolverem ao seu destinatário.

Agora o banco exige que eu devolva 1000 shekels – eles dizem que não foi erro deles, que o dinheiro foi por equívoco depositado pela empresa. Mas também não foi minha culpa.

O problema é que eu já gastei o dinheiro, e não tenho emprego atualmente.

O que devo fazer? Se o banco quiser me processar eles têm que escrever uma carta? Eles somente me telefonaram e eu disse “Não, não foi meu erro então não vou devolver nada.” Não sei se gravaram esta conversa ou não. A mulher disse que tenho que ir ao banco mas estou bem agora e apenas disse que não vou, que estou aborrecida com isto e não preciso de mais problemas.

Obrigada.”

Demorei um tempo para entender qual era o problema dela, já que até onde eu sei, quando se recebe um dinheiro que não é nosso – ainda que por equívoco – você precisa devolvê-lo! É uma simples questão de ética, não é? Não para a minha cliente. Minha resposta foi clara: “Você DEVE devolver o dinheiro o mais rápido possível, e é bom se apressar!”

Depois que mandei esta resposta ela me respondeu imediatamente o seguinte:

“Olá Tzvi,

Bem, outro advogado disse que não foi minha culpa, a pessoa a quem cabia o salário deu ao empregador os dados bancários incorretos e o banco não notou que o nome estava errado, além de a pessoa ter demorado três meses para identificar o problema; e neste meio tempo eu peguei o dinheiro que pensava ser meu de boa-fé, mas agora o dinheiro já foi usado, eu não posso pegá-lo de volta, e terei que entrar em dívidas para pagá-lo, e eu imediatamente devolvi o depósito de Fevereiro que ainda estava na minha conta, obviamente – o outro advogado não acha que eu tenha que pagar pelos erros dos outros, e eu agi de boa fé. Eu concordo com ele. O banco disse que o erro não foi dele. Então prefiro esperar e ver – eu acho que este caso deveria ser encerrado.

Cordialmente”

A minha resposta a ela foi muito direta, e eu perguntei como ela poderia acreditar em tal disparate? Eu instruí a devolver o dinheiro, e afirmei que este advogado com quem ela falou não sabe do que se trata ou talvez ela não o tenha compreendido. Eu ainda acrescentei uma última frase que ela não gostou: “Em tempo… se eles propuserem uma ação judicial contra você por favor não me ligue! Eu avisei! Este dinheiro não é seu. Eles podem não pedir que você pague com juros, mas você terá que devolver cada centavo.”

A resposta da cliente veio em alguns segundos:

“Obrigada pela sua opinião, Tzvi, mas o segundo advogado que eu consultei é um dos melhores profissionais americanos com escritórios em Nova York que concorda que eu saquei o dinheiro sem saber do erro e de boa fé, de modo que não posso ser responsabilizada. Além do mais o dinheiro não era do banco mas sim do cliente que deixou de ter o dinheiro depositado em sua conta pelo banco, então eles têm que exigir isto de outra pessoa que possa ser responsabilizada. Eu não posso ser processada pelos erros dos outros se agi de boa fé. Receber bens alheios que a outra parte ignora que foram subtraídos não transforma uma pessoa em culpada. Eu devolvi o que estava na minha conta. Não fiz nada de errado conscientemente.

Até onde eu sei eu teria que ter recebido uma alegação escrita para este dinheiro do banco ou do cliente antes de qualquer ação ser proposta contra a minha pessoa – até então recebi apenas uma ligação telefônica, e ainda que esta tenha sido gravada, durante esta conversa o banco alegou que o erro não foi dele, o que não é verdade. Além do mais, é obrigação deles informar se a ligação está sendo gravada. E parece que não foi.  

Se o banco tentar alguma coisa quanto a este assunto eu decidirei no momento o que fazer – e não espero que entrem mais em contato comigo.

Aliás, obrigada pelo seu apoio, (estou sendo sarcástica). É impressionante como todas as vezes que peço a sua orientação sobre um problema você apóia o outro lado. Tenho a impressão que isto se deve ao fato de eu não ser israelense, estou certa?

Se fôr suficientemente estúpida para ser processada, o que eu duvido, me lembrarei de não procurá-lo, já que com certeza fracassarei se fizer isto.

Tenha um bom dia.