“O que os advogados aprendem nas universidades de Direito? Eles aprendem a vencer… O que nós temos para começar a pensar é como resolver os problemas?”
Dr. Benjamin Carson
Quantas vezes você já ouviu a expressão “nós podemos vencer este caso”?
Pois bem, eu gostaria aqui de esclarecer melhor esta questão da vitória. Eu adoro vencer, a maioria das pessoas que conheço idem, mas nem sempre esta é a melhor forma de resolver um problema, como poderemos concluir do exemplo a seguir.
Harry e Sally:
Sally estava recebendo pensão alimentícia de Harry. O dinheiro sempre era recebido no tempo, e quando havia a necessidade de um extra ele sempre estava disposto a ajudar, quando podia. Ele amava muito os filhos e ainda nutria sentimentos por Sally.
No primeiro ano do Divórcio o ex-casal estava em constante contato e tinha uma excelente comunicação mútua, até que ela encontrou um outro companheiro.
Harry ficou frustrado, desapontado. Talvez porque ainda sonhasse com uma reconciliação ou talvez pelo fato de não poder imaginar seus filhos vivendo sob o mesmo teto de um estranho que “substituísse seu pai”.
O problema:
Sally, influenciada pelo novo parceiro, começou a criar caso com Harry, principalmente no que se referia aos seus horários de visita. Verdade seja dita, ele não era muito pontual, e devido à natureza de seu trabalho como vendedor autônomo, pegava as crianças mais tarde do que o horário combinado algumas vezes.
Apesar de seus atrasos (que Sally afirmava serem constantes), ele sempre procurava compensar depois. Ele não desistia dos filhos e respeitava a necessidade de Sally de tempo livre, tempo para si mesma. Ele também precisava de tempo, pelo menos mais um ano para se concentrar seus esforços, tendo em vista o objetivo de criar a sua própria empresa, que exigia muito tempo e investimento.
Sally e Harry – o reencontro:
Sally quis contratar um advogado para processar Harry. Ela encontrou um amigo de seu novo companheiro que garantiu a ela que “poderia vencer o caso”, que um Juiz imporia penalidades a cada vez que Harry se atrasasse, além de prometer que poderia conseguir uma pensão alimentícia ainda maior para ela.
Sally não acreditou nele e me telefonou, pedindo um conselho, e pediu que eu a representasse na condição de eu prometer que venceria o caso.
Depois de consultar meus sócios, decidi responder a ela pessoalmente. Nós marcamos uma reunião no meu escritório na qual eu disse a ela: “Eu posso vencer, mas você certamente perderá.” Como? No final ela decidiu que eu não era o tipo de advogado que estava procurando e contratou outro profissional.
O reencontro:
Desta vez eles se encontraram no tribunal, discutindo sobre os direitos de visita dos filhos, ou como chamo em casos como este: Obrigação de visita aos filhos. Um Juiz pode impôr a visitação aos filhos, mas apenas no papel. Nenhum juiz ou policial pode forçar um pai ou uma mãe a ser pontual ou mesmo a cumprir o acordo de visitação no que se refere aos filhos. Tudo o que um juiz pode fazer – e isto raramente é de fato realizado – é aumentar o valor da pensão da criança ou impôr certos tipos de sanções ao progenitor negligente.
Harry explicou ao juiz o quanto o ano que passou foi difícil para ele e o quão importante seria o próximo ano. O advogado de Harry fez um bom trabalho, mas o advogado de Sally era adepto de litígios, inflexível. Ele conseguiu convencer o juiz de cada uma das queixas de Sally – o advogado venceu e ela perdeu, perdeu muito tempo.
Harry, um pai exemplar:
Sally e o novo parceiro romperam o relacionamento logo após o caso no tribunal. Ela estava novamente só, e devido a um emprego que lhe foi oferecido logo após a conclusão do caso, estava precisando desesperadamente de ajuda com os filhos. Babás eram caras e ela não podia pagar por todas as vezes que precisava delas.
Harry era agora “um pai exemplar” no que se referia às visitas. Ele chegava alguns minutos antes do horário marcado para pegar os filhos e os devolvia no tempo certo, trazendo-os limpos e arrumados, mas devido à traumática experiência no tribunal ele não dava nenhum dinheiro extra, nada que a ajudasse.
Harry cumpria a sua obrigação e até mesmo trazia presentes para os filhos, mas no que se referia a Sally ele estava determinado a não dar nada que não fosse obrigado, nenhum minuto a mais ou shekel – não importava o quão desesperada ou necessitada ela estivesse. Ela estava agora sozinha, sem tempo para si mesma, e todo o dinheiro extra que recebera de Harry como resultado do aumento da pensão às crianças estava sendo gasto com as babás.
Harry e Sally têm um longo caminho pela frente:
As crianças ainda são menores de idade e o casal tem pelo menos 6 anos pela frente para criar “juntos” os filhos. Apesar de suas dificuldades eles são ótimos pais.
Sally me disse que Harry em breve será muito bem sucedido no que se refere ao aspecto financeiro, além de ter muito mais tempo livre como CEO de sua própria empresa – como ele planejou e explicou no tribunal.
Sally é não apenas uma cliente da nossa empresa, mas também se tornou uma boa amiga da esposa de um dos meus sócios durante o ano que passou, de modo que estamos atualizados quanto à sua situação. Ela nos contou que ele mal fala com ela, a não ser em casos de extrema necessidade. Desde aquele dia no tribunal ele se tornou uma pessoa distante, estranha – mas ele tem sido um pai “pontual” que nunca perde a visita aos filhos.
Sally teve que desistir de seu novo emprego e agora está “sozinha e feliz, feliz no seu antigo emprego e felizmente conformada” – palavras dela, não minhas.
Analisando o caso:
Quem estava certo e quem estava errado?
Será que o “advogado vencedor”, com sua visão limitada, deu à sua cliente a melhor solução?
Vencer ou renunciar:
Vencer certamente é ótimo, mas saber renunciar muitas vezes pode ser a melhor atitude a se adotar.


