Harry e Sally se conheceram no final da faixa dos 20 anos, ambos divorciados e sem filhos.

Harry, um israelense, conheceu Sally, originária de um país da América Central quando ela veio visitar familiares em Israel. Ambos eram do mesmo nível religioso, de uma realidade financeira parecida, tinham o mesmo nível de educação e estavam sedentos por uma nova oportunidade de felicidade conjugal. O casamento aconteceu poucos meses após terem se encontrado pela primeira vez.

O acordo era simples: Harry viajaria para a casa da família de Sally na América Central, onde ambos ficariam por um ano, talvez dois. Ela ainda precisava muito de seus pais, principalmente de sua mãe, e Harry era uma pessoa bastante acomodada, portanto o futuro parecia interessante. Por que não dar uma chance?

Nos cinco anos que se passaram eles tiveram 5 filhos, todos nascidos na América Central. Harry tinha uma nova vida mas não se sentia de fato satisfeito. Os “no máximo dois anos” haviam passado há muito tempo e não havia qualquer sinal da intenção de se retornar a Israel, tanto por parte de Sally quanto de sua família. Harry sabia que estava quase em pé de guerra com os pais da esposa – uma guerra que ele não tinha qualquer chance de vencer.

Eles eram felizes juntos, mas Harry se sentia sufocado pela família de Sally. Ele dependia financeiramente dos sogros, não tinha um emprego com remuneração razoável, apesar das promessas de um bom emprego. Todas as decisões a serem tomadas tinham que passar pelo crivo dos pais de Sally (principalmente de sua mãe), e como bem sabemos, “Ba’al HaMeah U Ba’al Hadeá” (quem tem o dinheiro é quem dá a palavra final).

A oportunidade finalmente surgiu. Ofereceram a Harry um excelente emprego em um país vizinho, era agora ou nunca, e Harry pressionou muito Sally até que ela concordou em acompanhá-lo com os filhos. Um mês depois de sua chegada no novo país, por motivos técnicos o plano não se concretizou, e consequentemente a família se viu em dificuldades financeiras. Como sempre Sally decidiu falar com sua mãe e contar a história sobre as dificuldades que estavam tendo.

Pois bem, dentro de menos de 2 semanas a mãe de Sally chegou para “salvar o pobre casal”, ajudá-los e orientá-los naqueles tempos difíceis. E para Harry, menos de um mês foi suficiente para ele querer fugir de tudo – se livrar da enorme pressão e humilhação que estava sofrendo, pelo fato de os sogros determinarem cada detalhe da vida deles.

Harry veio a Israel deixando para trás sua esposa e seus filhos. Sally voltou ao seu país de origem, e daquele momento em diante as coisas só se deterioraram para ambos. Sally estava zangada com Harry, se sentindo abandonada; Harry, por sua vez, estava livre da humilhação mas se sentia deprimido por não ver seus filhos e sua esposa, a qual amava. Os pais de Sally estavam planejando uma vingança contra Harry.

O tempo passou e nada aconteceu. As crianças não tinham mais contato com o pai; Sally estava cada vez mais chateada com Harry até que o contato entre eles cessou de vez. Foi aí que a mãe de Sally entrou em contato comigo para acionar Harry judicialmente exigindo uma pensão alimentícia para os menores.

Eu me ofereci para mediar o conflito, mas me recusei a assumir o caso por motivos legais e técnicos. Eles concordaram e eu imediatamente falei com Harry, que estava mais do que satisfeito em talvez se poder encontrar uma possibilidade de solução para o desagradável impasse.

Nas semanas seguintes eu tentei de tudo, sempre encontrando um obstáculo impenetrável – não por parte de Harry ou Sally, mas sim por parte dos pais dela – os meus clientes. Eles queriam sempre mais, queriam tudo de acordo com os seus termos, permanecendo inflexíveis, era tudo ou nada. Harry estava disposto a fazer renúncias, a recomeçar uma nova vida em Israel sem os pais dela, frequentar uma terapia, sustentar a família usando quase todo o seu salário que recebia em Israel. Mas nada era bom o suficiente – os meus clientes estavam interessados apenas em vingança e dinheiro.

Quase um ano se passou desde a primeira vez que me tornei mediador neste caso, e quase um ano se passou desde que o casal se falou pela última vez. Quase um ano se passou desde que Harry falou com seus filhos ou os viu, ou seja, quase um ano se passou desde que saí deste caso como mediador porque me recusei a jogar os filhos contra o seu pai.

Sally queria uma fortuna a título de pensão alimentícia aos filhos; ela queria que Harry fosse visitar os filhos no seu país mas não aceitava que eles viessem ver seu pai ainda que ele arcasse com todas as despesas (ele se ofereceu para pagar tudo o que fosse necessário a fim de possibilitar aos filhos uma visita a Israel).

Já Harry se recusou a dar a ela o GET ou pagar qualquer quantia que fosse até que se conseguisse um acordo final. Estava bem claro que linha que separava o amor do ódio era muito tênue.

Pensão Alimentícia a menores à distância:

Quando um dos pais tem a guarda dos filhos “de facto” e o outro não tem autorização de contato com os filhos, esta verba será muito baixa, senão nula.

Além do mais, quando os pais vivem em diferentes continentes ou países, o valor da pensão não se baseará nos custos do local onde as crianças estão vivendo, e estava bem claro que as despesas eram bem altas devido à educação judaica privada que eles receberiam fora do país.

Assim sendo, Sally estava agindo de forma totalmente irracional, ignorando a necessidade de defender os interesses dos filhos.

A um passo do Divórcio:

Mais de uma vez estávamos prestes a conseguir um bom acordo entre o casal, mas no último momento os pais de Sally interferiam e acabavam com tudo – sempre.

Um bom amigo da família, uma respeitado Rabino, estava quase conseguindo que o casal se reconciliasse – que seria a melhor coisa para o casal e para as crianças – até que os pais de Sally assumiram as negociações e conseguiram acabar também com esta possibilidade.

Em outra oportunidade eu estava a um passo de um acordo quando Harry decidiu abandonar tudo.

Sejamos sensatos:

Duas pessoas se casam e têm filhos sem a presença dos pais em cada passo que dão. Eles deveriam, igualmente, procurar uma reconciliação (ou um Divórcio, neste caso), sem a “grande ajuda” dos pais.

O caso que descrevi acima é um bom exemplo do fato de que os casais deveriam ter o bom senso de saber melhor como agir dentro de um relacionamento íntimo, deveriam saber como se separar/divorciar de forma civilizada; mas acima de tudo, para que isto seja possível, é imprescindível que ambos saibam separar as suas vidas das vidas dos seus pais, inclusive quanto às convicções de cada um, principalmente em momentos de crise nos quais os sentimentos ficam à flor da pele e sujeitos às piores influências.